Bicho de quantas cabeças?
Publicado em 21/07/2008 – 14:18Pergunto-me diariamente sobre a relação que as pessoas mantêm com os jogos. É tão estranho perceber opiniões tão radicais em relação a eles. Pais, escolas, políticos e até religiões atacando os jogos como se fossem eles os responsáveis pelo mal do mundo, e pela desvirtualização de nossas crianças e adolescentes.
Como já ressaltei antes, é muito fácil culpar os outros, e criticar sem um conhecimento real. O senso-comum impera nas falas, e junto dele é possível notar uma mistura de sentimentos, sendo predominantes a raiva, a angústia e o medo.
De onde surge tanta negatividade? Admito que não seja o ideal que uma criança passe várias horas ininterruptas na frente de um computador. Mas a questão que me surge é: Será que ela possui alguma alternativa de passatempo, ou até uma clareza em relação a limites?
Este questionamento surge, pois reconheço as limitações do lazer na sociedade. O mundo se mostra caótico demais para que possamos deixar nossas crianças jogando futebol na rua, ou soltando pipa, sem nos preocuparmos com isso.
A geração de crianças de apartamentos limita, em muito, divertimentos e brincadeiras ao ar livre, sobrando relativamente poucas opções de entretenimento.
Os jogos, juntamente com a televisão, constituem a base da distração possível para os jovens, não existindo muitas opções alem disso.
Discursos como “na minha época jogávamos futebol e brincávamos na rua, não ficávamos enfurnados em um quarto na frente de uma tela”, comumente usados pelos mais velhos, se mostra como uma visão arcaica e saudosista de tempos que nunca retornarão. As possibilidades de jogos atualmente se constituem como uma estruturação das brincadeiras de faz-de-conta. Ele permite à criança se ver como um general de um exercito medieval, como um policial, um piloto de avião, enfim, as possibilidades são extremamente variadas, permitindo um exercício de sua imaginação, com uma estruturação muito maior do que a de brincadeiras realizadas por nossos pais, tios e avós.
Convenhamos, nos dias atuais, as brincadeiras antigas já não tem um lugar que possam ocupar realmente. Até a brincadeira inocente de soltar pipas causa mortes, aliás, mais mortes do que já foram registradas por jogos eletrônicos, se é que existe alguma morte registrada que tenha como causa comprovada o uso de jogos eletrônicos.
Senhores pais e cuidadores, sua infância passou, e não é saudável tentar revive-la através de seus filhos. Os tempos mudaram, e por mais que seja difícil, o pensamento também deve acompanhar essa mudança.
Sua preocupação é o excesso? Imponha certos limites, atue de acordo com seu papel e sua obrigação como cuidador. Assuma a responsabilidade de seus atos, e sendo ousado, assuma sua negligência perante ao jovem. Mas não culpe o jogo por algo fundamentado na insensatez, e nem penalize a criança, tirando o que muitas vezes é sua única forma de lazer estruturado.
Bernardo Dolabella é graduando em psicologia na UFMG, atua na área de saúde mental e justiça. Mantem como base do pensamento a racionalidade e a critica às meias-verdades do mundo.
RSS


Um comentário em “Bicho de quantas cabeças?”
Um artigo de auto-ajuda. Excelente!
por Tininha em 21/07/2008